Queria esclarecer que o fazem cair em erro. Que você faz o jogo dos extraordinários, dos doutos da experiência. Mas antes irá se perguntar: por que me escreve? E não será o primeiro. Pois sim, escrevo; e não me arrependo – talvez me arrependesse se parasse para pensar, mas não paro, deixo a caneta correr e ela dispara só não mais rápido que a cachola, mas confesso que há perigo de empate. Talvez nem te escreva, mas escreverei sobre você, o que certamente não te elevará em nível algum, talvez apenas na percepção que tem de si mesmo. E isso, infelizmente (se de fato ocorrer), provará que você não entendeu uma palavra. Mas viveremos.
O fato é que leva sua vida de rastos, numa inércia moral, caído em torpor. Flui com e como os homens nos cafés, nos museus, nos teatros. Um matrimônio às pressas, por impaciência, interesse, gerando filhos à eventualidade. Toda a luz que se propaga à sua volta começa e termina fora do seu campo visual, numa velocidade finita. Fortuitamente, apanhado como um flagelo que bate em forma de centrífuga, como num moinho, se debate sem inteiramente perceber o que te acontece. Episódios que vêm de longe tocam-no bruscamente e, quando você quer olhar, tudo já está terminado. Difusos círculos herméticos: um ciclo.
Depois, aos trinta e três, se fará de disparador inconsciente: “dois níqueis na fenda da esquerda e eis que saem anedotas embrulhadas em papel prateado, dois níqueis na fenda da direita e recebem-se preciosos conselhos que grudam nos dentes como caramelos pegajosos”. E correrá como o mel, numa caixinha de papel. Encenará o batismo de seus pequenos caprichos e meia dúzia de máximas e os registrará, como filhos, com o nome de Conhecimento. Ora, também eu, através desse mesmo processo, poderia ser convidada pelos notáveis jogadores a freqüentar os corredores em que se bebe, se pinta e se encena. Seríamos os velhos circuitos estáticos em constante revolução, parados diante do Eterno.
Gostaria de me fazer acreditar que o seu passado não se perdeu. Que há luz, aquela mesma que foge à sua visão, e que ela voltará. Mas não há luz. Suas reminiscências se liquefizeram, se verteram lentamente ao que você dá o nome de Experiência. Jogou fora as tulipas e os olhos castanhos a quem você pedia que ficassem dourados só pra você. Ficou com o relógio de bolso e os binóculos de ópera, acrescidos a quantos Charles você conseguir lembrar. Teria sido o Baudelaire, o Bukowski, ou o Dickens? Não importa mais. A vida terá se encarregado de pensar por você.
M.T.Kodic