Tuesday, September 25, 2007

F de Facataz

Favelas
Tijolos à mostra
Duros, rochas-de-sangue,
Em frágil equilíbrio
Balanço

Festa
Na laje, gente curtindo,
Fumando, caindo em nuvens curtidas
Envolvente fedor
Sexo

Famílias
Mancas, sem pernas, sem amor
Bêbados eles as deixam
Assim, de barriga
Voltadas para cima, rezam
Deus

Filhos-do-mundo
A luz chega em nove
Se movem, esticam...
A linha da infância sobe
A pipa vira medo, terror
Ânsia

Febril
Vômitos e votos se vão, em vão
Promessas pintam o preto, protesto
Mas nada muda
Sede

Água-ardente. Fim

H.M.Bergamo

Prato do dia: Lula

Existem pessoas que acham o Lula bom.
Outras acham o Lula ruim.
Outras simplesmente acham ruim achar o Lula bom.
Outras acham bom achar o Lula bom.
Eu tenho certeza de que não sei quem é ou o que é Lula, dizem que é presidente, mas como posso reclamar se o Pedrão 2 entrou na balada política de RG falso?
É muito para mim. E para você?
Não é uma questão de opinião ou razão.
O Lula é fruto de uma história.
E agora... quem irá nos salvar... ops... "Quem seria "nós"?"

H.M.Bergamo

Wednesday, September 19, 2007

Carta aos franceses

Queria esclarecer que o fazem cair em erro. Que você faz o jogo dos extraordinários, dos doutos da experiência. Mas antes irá se perguntar: por que me escreve? E não será o primeiro. Pois sim, escrevo; e não me arrependo – talvez me arrependesse se parasse para pensar, mas não paro, deixo a caneta correr e ela dispara só não mais rápido que a cachola, mas confesso que há perigo de empate. Talvez nem te escreva, mas escreverei sobre você, o que certamente não te elevará em nível algum, talvez apenas na percepção que tem de si mesmo. E isso, infelizmente (se de fato ocorrer), provará que você não entendeu uma palavra. Mas viveremos.
O fato é que leva sua vida de rastos, numa inércia moral, caído em torpor. Flui com e como os homens nos cafés, nos museus, nos teatros. Um matrimônio às pressas, por impaciência, interesse, gerando filhos à eventualidade. Toda a luz que se propaga à sua volta começa e termina fora do seu campo visual, numa velocidade finita. Fortuitamente, apanhado como um flagelo que bate em forma de centrífuga, como num moinho, se debate sem inteiramente perceber o que te acontece. Episódios que vêm de longe tocam-no bruscamente e, quando você quer olhar, tudo já está terminado. Difusos círculos herméticos: um ciclo.
Depois, aos trinta e três, se fará de disparador inconsciente: “dois níqueis na fenda da esquerda e eis que saem anedotas embrulhadas em papel prateado, dois níqueis na fenda da direita e recebem-se preciosos conselhos que grudam nos dentes como caramelos pegajosos”. E correrá como o mel, numa caixinha de papel. Encenará o batismo de seus pequenos caprichos e meia dúzia de máximas e os registrará, como filhos, com o nome de Conhecimento. Ora, também eu, através desse mesmo processo, poderia ser convidada pelos notáveis jogadores a freqüentar os corredores em que se bebe, se pinta e se encena. Seríamos os velhos circuitos estáticos em constante revolução, parados diante do Eterno.
Gostaria de me fazer acreditar que o seu passado não se perdeu. Que há luz, aquela mesma que foge à sua visão, e que ela voltará. Mas não há luz. Suas reminiscências se liquefizeram, se verteram lentamente ao que você dá o nome de Experiência. Jogou fora as tulipas e os olhos castanhos a quem você pedia que ficassem dourados só pra você. Ficou com o relógio de bolso e os binóculos de ópera, acrescidos a quantos Charles você conseguir lembrar. Teria sido o Baudelaire, o Bukowski, ou o Dickens? Não importa mais. A vida terá se encarregado de pensar por você.
M.T.Kodic