Eu era um artista. Daqueles que respiram arte 24x7. Venerava a boa arte e gostava mais ainda de detestar a ruim. E detestava tudo o que não era arte. Meus amigos, como não poderiam deixar de ser, eram artistas. Arte era minha Filosofia. O mais era nada. Passara cada um de meus vinte e dois anos erguendo todas as defesas possíveis, desenvolvendo todo um mecanismo de resistência. Construíra uma barreira invisível para que nada pudesse me atingir. Vivia, por mim e para mim, em meu mundinho impermeável.
Até que a encontrei. A vida era mesmo um abismo de surpresas. Numa fração de segundo, aparece uma pessoa banal, igualzinha a qualquer outra pesso banal, e faz algo igualmente banal. E de repente... adeus barreira. Ela descia de um táxi preto. Terno preto, cabelo imaculável. Poder, modernidade, anonimato. Ela era arte.
Fomos apresentados: advogada. Minhas mãos trêmulas permaneciam guardadas no bolso para não serem vistas. Aversa à imaginaçao, vivia segundo o racionalismo de Descartes. Para ela, imaginar era representar objetos segundo as qualidades secundárias, os sentidos de nada valiam. Naturalmente, meu ofício nada mais era do que passatempo de vadio.
Cobria-me de encantos e de medos. Cativo, na transição entre egocentrismo e submissão, sucumbi. Silêncio. E aqui caberiam mil substantivos. Provocação, insistência, concessão, todos acentuados. Perspectiva? Harmonia. Sua exatidão e minha humanidade cruzaram-se, descruzaram-se, mesclaram, e se fundiram perpetuamente. Completávamos um ao outro.
Continuo artista. Mas não sou aquele velho e incansável bon vivant. Minha maior convicção foi desmascarada: boemia e arte são, sim, dissociáveis. Substituí a inconseqüência pela reflexão, troquei meus vícios por suas virtudes.
Se me arrependo?
Olha o sorriso dela.
M.T.Kodic
"Circunda-se de rosas, ama, bebe e cala.
O mais é nada". - Fernando Pessoa
Wednesday, January 24, 2007
Thursday, January 18, 2007
Corte seco
Não há quem deixe de buscar no espelho do elevador um pouco de sua própria imagem. Vaidade pode até ser, mas serei ameno, é sempre só uma olhada ocasional. O reflexo pode lhe parecer misterioso, agradável, ou até antipático, mas nunca deixa de ser um guia para a linha do batom ou um sincero juiz ao condenar o nó da gravata séria. Mas nesse dia havia mais, encaminhava-me ao cabeleireiro, barbeiro se exigir uma rudeza maior. Olhava-me não somente no elevador, mas também no reflexo escuro de carros parados, ou em vitrines que insistiam em mostrar meu rosto. A cada espiada um corte diferente aparecia em minha cabeça definindo-me externamente. Há quem diga que cada aparência revela uma personalidade. Mas eu digo que o visual em nada influencia o caráter. Porém, nesse dia meus princípios se exauriram. Buscava em mim algo que pudesse me fazer superior, importante. Na loja musical me vi em Elvis, não só o cabelo, mas também em sua fama. No vidro da livraria desejei não ter cabelo algum, ser simplesmente um bicho, realizado. No metrô, sentei-me à janela. Luzes rápidas trocavam meu ser. Curto, soldado. Longo, boêmio. Franciscano, santo. Moicano, rebelde. O trem parou, desci. Na escada rolante subia eu e modelos em anúncios me acompanhavam opinando. “Faça como o meu e consiga uma foto maravilhosa como esta. Provocante não?”. Muito, mas dispensei. Afinal, o que as fotos sabem sobre a vida? Desci a rua com passos em compassos. Cheguei. No salão ouvi gritos de súplica, sofrimento. Um menino de olhos azuis esperneava, buscava uma saída da poltrona do corte. Possuía um olhar perdido no labirinto oligofrênico que habitava seu cérebro. Gritava a cada movimento mudo da tesoura, uma tortura que me comovia, corria-lhe. Sua mãe ao lado, segurava-o com as mãos e com o amor. E todos ao redor tentavam transmitir bondade, normalidade. O serviço em fim terminou e o garoto se foi mais acalmado. Sentei-me na poltrona e apanhei uma revista para adultos. “Vai cortar como hoje, patrão?”. Honestamente respondi. “Tanto faz”. E apreciei fotos de mulheres nuas tentando desviar a imagem de uma criança sincera. E paguei sem dar conta do dinheiro que contei. E saí sem ver meu velho rosto renovado.
H.M.Bergamo
H.M.Bergamo
Wednesday, January 10, 2007
Digestão Peculiar
Quantas analogias à vida fazemos continuamente? E haverá algo mais infinitamente confuso, equivocado e policromático? Não sei.. talvez ela seja mesmo preta e branca, e nós que insistimos em olhá-la através de lentes ilusórias que a transformam em colorida e jovial. Faz sentido. Mas deixemos de lado as cores... falemos dos sabores. Sinta o gosto e o cheiro dessa essência de misturas que é a vida. O mundo pertence aos Häagen Dazs, impassíveis ao mormasso da pobreza, por puro medo de serem derretidos em um mar de responsabilidade. Os pães de transanteontem se acumulam em massa na porta dos fundos, ali, ao lado de um jornal trágico de domingo. Que tentação são aos olhos os bolos de três andares, cobertos de morangos carmins, reluzentes. Mas ao serem cortados pela faca da justiça, revelam-se internamente estragados. Até mesmo o banal misto quente, cortado só até o meio, com o recheio dobrado em quatro. Mas só na metade aparente, porque depois aprende-se que na outra metade não havia recheio algum. O paladar da mente é cego. A cobiça e a ignorância servem de fermento para o erro; bem como a convicção e a incerteza, sal e pimenta de um amor sem tempero. Doce ilusão? Melhor que fosse. O açúcar há tempos se esgotou. Apenas gotas de um adoçante que disfarça mas não elimina o gosto amargo da realidade foi o que nos restou.
M.T.Kodic
"Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria." - Fernando Pessoa
M.T.Kodic
"Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria." - Fernando Pessoa
Aquele Sonho
Quando paro e penso
tento e tento não pensar em você
mas não há mente que agüente
ir contra a corrente
ah! Se eu tivesse você
Esse sorriso, esse jeito
todo perfeito de ser
acaba por fim, além de mim
todo o mundo querendo lhe ter.
Se eu lhe tivesse na cama
o "posto que é chama"
iria para o ato, o fato
amando, amasso!
Mas é te querendo e desejando
tentando lhe ver
paro, percebo:
quem é você?
H.M.Bergamo
tento e tento não pensar em você
mas não há mente que agüente
ir contra a corrente
ah! Se eu tivesse você
Esse sorriso, esse jeito
todo perfeito de ser
acaba por fim, além de mim
todo o mundo querendo lhe ter.
Se eu lhe tivesse na cama
o "posto que é chama"
iria para o ato, o fato
amando, amasso!
Mas é te querendo e desejando
tentando lhe ver
paro, percebo:
quem é você?
H.M.Bergamo
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