Wednesday, September 19, 2007

Carta aos franceses

Queria esclarecer que o fazem cair em erro. Que você faz o jogo dos extraordinários, dos doutos da experiência. Mas antes irá se perguntar: por que me escreve? E não será o primeiro. Pois sim, escrevo; e não me arrependo – talvez me arrependesse se parasse para pensar, mas não paro, deixo a caneta correr e ela dispara só não mais rápido que a cachola, mas confesso que há perigo de empate. Talvez nem te escreva, mas escreverei sobre você, o que certamente não te elevará em nível algum, talvez apenas na percepção que tem de si mesmo. E isso, infelizmente (se de fato ocorrer), provará que você não entendeu uma palavra. Mas viveremos.
O fato é que leva sua vida de rastos, numa inércia moral, caído em torpor. Flui com e como os homens nos cafés, nos museus, nos teatros. Um matrimônio às pressas, por impaciência, interesse, gerando filhos à eventualidade. Toda a luz que se propaga à sua volta começa e termina fora do seu campo visual, numa velocidade finita. Fortuitamente, apanhado como um flagelo que bate em forma de centrífuga, como num moinho, se debate sem inteiramente perceber o que te acontece. Episódios que vêm de longe tocam-no bruscamente e, quando você quer olhar, tudo já está terminado. Difusos círculos herméticos: um ciclo.
Depois, aos trinta e três, se fará de disparador inconsciente: “dois níqueis na fenda da esquerda e eis que saem anedotas embrulhadas em papel prateado, dois níqueis na fenda da direita e recebem-se preciosos conselhos que grudam nos dentes como caramelos pegajosos”. E correrá como o mel, numa caixinha de papel. Encenará o batismo de seus pequenos caprichos e meia dúzia de máximas e os registrará, como filhos, com o nome de Conhecimento. Ora, também eu, através desse mesmo processo, poderia ser convidada pelos notáveis jogadores a freqüentar os corredores em que se bebe, se pinta e se encena. Seríamos os velhos circuitos estáticos em constante revolução, parados diante do Eterno.
Gostaria de me fazer acreditar que o seu passado não se perdeu. Que há luz, aquela mesma que foge à sua visão, e que ela voltará. Mas não há luz. Suas reminiscências se liquefizeram, se verteram lentamente ao que você dá o nome de Experiência. Jogou fora as tulipas e os olhos castanhos a quem você pedia que ficassem dourados só pra você. Ficou com o relógio de bolso e os binóculos de ópera, acrescidos a quantos Charles você conseguir lembrar. Teria sido o Baudelaire, o Bukowski, ou o Dickens? Não importa mais. A vida terá se encarregado de pensar por você.
M.T.Kodic

11 comments:

Anonymous said...

eu queria muito pode expressa o que esse texto me fez senti e tenta fala algo a altura, mas eu nao tenho essa capacidade. sei q vai enxe de comentario igual ao meu aqui mas é a verdade. digo entao parabens.

Rafael Mury said...

acho que comentários pessoais devem ser feitos diretamente a você Marlis.

idk

acho você sincera. moderna.

amo, você sabe!

Mas... você é misteriosa. pode ser qualquer coisa. =)

Anonymous said...

Bom, acreditar que a menina loira, inocente mas com olhos misteriosos que conheci há uns meses atrás pudesse com tanta maestria redigir um texto como esse, seria uma ilusão. Mas hoje, após ler tal texto, por sinal muito bem escrito, pude perceber que este ser chamado Marília de Toledo Kodic esconde muito mais do que apenas um rosto bonito.
Mostrou que não tem talento, e sim, um dom. Faz o que gosta. Escrever parece ser fácil diante do amor que sente pelo que busca, o mundo.
Uma menina sonhadora cujas asas não merecem jamais serem cortadas, contudo cicatrizes são merecidas e serão levadas adiante e convertidas em experiência, em sucesso.
Queria mostrar por meio desse comentário a profunda admiração que tenho por você.
Continue sempre assim pois você, loirocas, merece muito mais que isso...

Pedro

Lucas EtCetera Proa said...

BRIMAAAAA

mandoo muitoooo
....
agora saum 7 horas da manha...
num intedi todo o texto, pq o horario naum ajuda....
mas ficou sensacional.. leerei
novamente.!
!!!

"inspirador e provocativo"
primo

"ANIMAL"
Lucas

"itrigante do começo ao fim"
Marcilio

Anonymous said...

me inspira, me orgulha.
nao entendi tudo, mas deduzo que parta de experiencias suas. mas a essencia ficou clara, peguei o exato tom e a acusacao, parto daqui com elas apontadas pra muita gente.


luz!
voce tem luz.

Anonymous said...

bom, eu achei muito interessante...e sem conhecimento prévio diria: "os belgas, ah, os belgas...nunca fizeram porra nenhuma...NUNCA ouvi falar da Bélgica nas aulas de história..."
...mas...depois, numa reflexão mais antropológica...cheguei à conclusão de que os belgas nem devem saber quem somos os brasileiros...
Eita mundinho besta.

Mel said...

Adorei o texto,
é como se fosse sarcastico e ao mesmo um tempo um "tapa de pelica" que nem diria a minha.
adoraria me expressar com tamanha emoção
amo-te
beijos

Anonymous said...

Se eu repetir que eu senti cada palavra na pele, você vai acreditar?

Fantástico o texto!!

Posso dizer que é muito real. E isso encanta qualquer um, desbanca qualquer fábula. Você que voa e sabe voar!

Um beijo

Anonymous said...

Suspiros só as brasileiros, àqueles com quem partilha o sangue.
Quem sabe um dia, com flores do mal em mãos, em um café belga qualquer, peça um chá ou dois e se depare com muito mais.
Vamos pra Bélgica ( e olha que você me disse isso hoje.

Mario.

Anonymous said...

aos brasileiros, quis dizer...

Anonymous said...

você critica àqueles que se acham em alta cultura, vivem centros intelectuais e imitam obras, não pensando por si só, sem luz própria, ainda assim tentam manter a fachada de pensante quando.. sabem frases de cor de filosofos mas nunca foram um..o texto no fundo também fala da retórica como uma imagem daqueles que assim o são....fala de nada