Thursday, January 18, 2007

Corte seco

Não há quem deixe de buscar no espelho do elevador um pouco de sua própria imagem. Vaidade pode até ser, mas serei ameno, é sempre só uma olhada ocasional. O reflexo pode lhe parecer misterioso, agradável, ou até antipático, mas nunca deixa de ser um guia para a linha do batom ou um sincero juiz ao condenar o nó da gravata séria. Mas nesse dia havia mais, encaminhava-me ao cabeleireiro, barbeiro se exigir uma rudeza maior. Olhava-me não somente no elevador, mas também no reflexo escuro de carros parados, ou em vitrines que insistiam em mostrar meu rosto. A cada espiada um corte diferente aparecia em minha cabeça definindo-me externamente. Há quem diga que cada aparência revela uma personalidade. Mas eu digo que o visual em nada influencia o caráter. Porém, nesse dia meus princípios se exauriram. Buscava em mim algo que pudesse me fazer superior, importante. Na loja musical me vi em Elvis, não só o cabelo, mas também em sua fama. No vidro da livraria desejei não ter cabelo algum, ser simplesmente um bicho, realizado. No metrô, sentei-me à janela. Luzes rápidas trocavam meu ser. Curto, soldado. Longo, boêmio. Franciscano, santo. Moicano, rebelde. O trem parou, desci. Na escada rolante subia eu e modelos em anúncios me acompanhavam opinando. “Faça como o meu e consiga uma foto maravilhosa como esta. Provocante não?”. Muito, mas dispensei. Afinal, o que as fotos sabem sobre a vida? Desci a rua com passos em compassos. Cheguei. No salão ouvi gritos de súplica, sofrimento. Um menino de olhos azuis esperneava, buscava uma saída da poltrona do corte. Possuía um olhar perdido no labirinto oligofrênico que habitava seu cérebro. Gritava a cada movimento mudo da tesoura, uma tortura que me comovia, corria-lhe. Sua mãe ao lado, segurava-o com as mãos e com o amor. E todos ao redor tentavam transmitir bondade, normalidade. O serviço em fim terminou e o garoto se foi mais acalmado. Sentei-me na poltrona e apanhei uma revista para adultos. “Vai cortar como hoje, patrão?”. Honestamente respondi. “Tanto faz”. E apreciei fotos de mulheres nuas tentando desviar a imagem de uma criança sincera. E paguei sem dar conta do dinheiro que contei. E saí sem ver meu velho rosto renovado.

H.M.Bergamo

6 comments:

Anonymous said...

esses dois ultimos textos de vcs sao os melhores curti pra caralho vcs tem uma visao singular do mundo aproveitem isso

Anonymous said...
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Anonymous said...

voces fazem a internet um lugar melhor

Anonymous said...

Uau, gostei do ritmo. A leveza desse texto possibilita uma criação da cena na cabeça do leitor. Parábens Henrique, muito bom mesmo..

Anonymous said...

Aê, Henrique.. achei bem complicadinho. Mas gostei porque eu tive que reler e reler. Se é o que eu entendi, está muito bom, hein.. bem sutil, como um corte seco.. IAHIAH.. que trocadilho..

Anonymous said...

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