Thursday, December 14, 2006

Um litro de vergonha

Era entre o primeiro e o segundo turno das eleições “presidenciais”. Sentado ao bar do clube, cultivando carisma e gastando conversa com o garçom que me atendia. Um dos sócios passa pela porta e pára em mim. “Mais um copo, por favor”. Camisa azul clara, desbotada e chique, colarinho de orgulho, sufocante. Gentil, amigão desses para sentar frente à cerveja e ao petisco, bater horas de papo, batendo copos na mesa, mais tarde batendo a cabeça aonde houver apoio.
Naquele tempo era difícil livrar-se do assunto eleições. Cedo ou tarde comentando o resultado da última pesquisa apontando o de sempre, sempre à frente nas intenções de voto. “Pesquisa fajuta!”. A certeza do incerto acaba sempre por enganar a mente do homem. Acreditamos no que queremos, quando nos faz bem. Fraqueza presente em todos, qualidade conhecida pela expressão “se enganar”. Tal característica humana virá me beneficiar. “Está tudo comprado! Quer apostar?”. O prêmio: litro de “Rédi”.
Fácil assim ganhei. Se perseguisse cada cego no mundo, nadaria em destilados, ou beberia demais, chegando a alucinações com corvos em campos de milhos, ou encontraria o mesmo fim que Van Gogh em cenário semelhante ao anterior. Porém não abuso da fragilidade humana. Foi só um litro.
Acabou em uma festa com os amigos. O apostador presente, consumindo o presente que me dera. A ressaca estendeu-se por dois dias. Mas o resultado da eleição se estenderá por quatro anos, e depois mais quatro. O amigo também ficou de ressaca e preso à mesma condição. Diferença que eu ganhei, ele perdeu. Moralmente cabe a você julgar. Quem fede menos? Eu que sei e nada faço, ou ele que não vê e espera acontecer? Enquanto pensa, deixe-me encostar mais um pouco nessa garrafa vazia, mas que um dia foi cheia.

H.M.Bergamo

Wednesday, December 13, 2006

Metalinguagem

Escrevo com minha caneta tinteiro
e depois não compreendo.
Se não o decifro, por que o escrevo?
Não sei, só sei que nada sei.

Escrevo filosofia. Escrevo imodéstia.
Escrevo exagero. Redundância.
Escrevo natureza, e os cinco sentidos.
Dou-lhe vida: metafísica!

Paradoxo? Tudo se contradiz.
Totalidade - escrevo generalização.
Uma exceção muda essa acepção.
Rimas imprevistas!

Ou planejadas? Sou poeta, fingidor.
Escrevo imaginação, ficção, confusão.
Fabrico realidade. Réplica do concreto.
Torno-o abstrato. Incompreensão.

Escrevo vida, sentimento, recordação.
Lembro-me do que há de vir, intuição.
Caos, desordem, fissão.
Escrevo conflito, limito o infinito.

Irreal, verdadeiro. Inversão?
Último, primeiro. A caneta é a borracha
que apaga o ócio, não por inteiro
mas tenta, ligeiro, minha caneta tinteiro.

M.T.Kodic

"As palavras não nascem amarradas, elas saltam, se beijam, se dissolvem, no céu livre por vezes um desenho, são puras, largas, autênticas, indevassáveis." - Carlos Drummond de Andrade